Amazônia, guardiã de soluções

Até o fim desta década, temos a oportunidade de redefinir os caminhos para o desenvolvimento da região, partindo das novas oportunidades que a economia de baixo carbono traz

Por Marina Grossi*

Guardiã de soluções tanto para a crise climática quanto para a perda da biodiversidade, a Amazônia pode ser a grande catalisadora da descarbonização da economia brasileira. A substituição dos modelos predatórios de exploração do bioma por uma lógica que conserve a floresta em pé, aproveitando seu potencial de modo sustentável, poderia gerar um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) da ordem de R$ 40 bilhões anuais, com geração de 312 mil empregos adicionais até 2050, como projeta o recente estudo Nova Economia da Amazônia, coordenado pelo WRI Brasil em parceria com mais de 70 pesquisadores de renome.

O caminho para redirecionar a rota de desenvolvimento da Amazônia não é simples, porém é possível, com os incentivos certos. De acordo com o estudo, o custo de transição para implementar a nova economia da Amazônia seria da ordem de R$ 2,56 trilhões até 2050, o equivalente a um investimento de 1,8% do PIB nacional por ano, cerca de 0,8% adicional ao nível de investimento atual. O estudo sugere o investimento de R$ 659 bilhões no uso estratégico do solo, R$ 410 bilhões na mudança da matriz energética e R$ 1,49 trilhão em infraestrutura – o valor mais significativo. Assim, remodelar a economia amazônica exigiria incentivos da parte do poder público, desonerando as atividades ligadas à bioeconomia amazônica, e também a criação de um arcabouço e taxonomia verde que orientem os fluxos financeiros nessa direção. Outro passo importante para atrair recursos é o mercado regulado de carbono, uma bandeira do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2016.

Ao menos quatro segmentos econômicos – bioeconomia, infraestrutura e energia, mineração e agropecuária – são fundamentais para redirecionar a economia da Amazônia e, em todos os cenários, o setor empresarial tem muito a contribuir, com sua capacidade de inovar e potencializar soluções. A bioeconomia é uma atividade de enorme potencial para a região, gerando hoje um PIB de R$ 12 bilhões, e que pode alcançar R$ 38,6 bilhões até 2050, a partir do fomento e agregação de valor dos produtos da floresta. A atividade de restauração de áreas degradadas, com ênfase nas chamadas soluções baseadas na natureza, também é um importante elemento dessa equação e pode ajudar na resiliência dos sistemas agrícolas.

Para se manter relevante, a agropecuária deve ser livre de desmatamento e completamente amparada pela massificação das práticas de baixo carbono e intensificação produtiva. Na área de infraestrutura, as soluções apontadas incluem aumentar o acesso da população a fontes descentralizadas de geração de energia, tais como os sistemas fotovoltaicos, e a utilização de transporte hidroviário com motores híbridos para otimizar a logística, com novos aproveitamentos para a extensa malha de rios amazônicos. Por fim, a atividade de mineração, que já é um importante vetor do PIB da região, pode ganhar nova proporção à medida que novos minerais estratégicos serão demandados no cenário de transição energética e na construção da infraestrutura para a economia de baixo carbono.

As decisões econômicas que serão tomadas nos próximos anos precisam levar em conta que, não obstante sua rica biodiversidade, a Amazônia Legal é a casa de 30 milhões de brasileiros, que convivem com indicadores de desenvolvimento humano ainda muito desiguais, seja no acesso à educação, saúde ou saneamento básico. É preciso que o planejamento da nova economia da região coloque as pessoas no centro da tomada de decisões e leve em consideração as diferentes faces de sua população: ribeirinhos, indígenas, quilombolas e seus descendentes, bem como os moradores da Amazônia urbana, que enfrentam o cotidiano das metrópoles e seus desafios de moradia, mobilidade e acesso a serviços básicos. O conhecimento local e ancestral, ancorado em mais de 12 mil anos de ocupação humana neste território, precisa ser acolhido e valorizado na construção desta nova realidade econômica.

No dia 5 de setembro foi celebrado o Dia da Amazônia, efeméride lançada em 2007 como forma de ampliar a consciência sobre a importância e a complexidade do bioma. A data remonta à criação da Província do Amazonas por dom Pedro II, em 1850, mas ganha atualidade neste momento em que a Amazônia está sob os holofotes e será sede da COP30, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas em 2030, a primeira a ser realizada em solo brasileiro.

Até o fim desta década, temos a oportunidade de redefinir os caminhos para o desenvolvimento da região, partindo das novas oportunidades que a economia de baixo carbono traz. Diferentemente do passado, hoje temos conhecimento sobre a importância da floresta e dos serviços ambientais prestados por ela, e temos o legítimo clamor para que a riqueza gerada na região beneficie sua população, reduzindo as agudas desigualdades sociais. Há muito debate ainda a ser feito, mas já é consenso que o mundo precisa de uma Amazônia forte, preservada, próspera e resiliente.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com mais de 110 empresas associadas cujo faturamento somado equivale a quase 50% do PIB brasileiro

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