Do campo ao garfo: a importância da transformação sustentável na Industria de alimentos

Mais do que qualquer Indústria, a de alimentos e bebidas, é essencial para a nossa sobrevivência. Essa indústria está presente em todos os dias das nossas vidas, quando fazemos nossas refeições, mas para além desse momento também, se refletirmos o quanto ela afeta o mundo ao nosso redor. A Indústria, está dentro da esfera mais ampla dos sistemas de alimentos, que são formados por diversos atores, os quais serão abordados em seguida. 

Sistemas alimentares são os processos, pessoas, organizações e entidades envolvidos na produção, processamento, distribuição e/ou consumo de alimentos para humanos ou animais.

Esses sistemas estão sob grande pressão por diversos motivos, para citar alguns: Mudanças climáticas estão ameaçando a produção agrícola com secas e outros eventos extremos, no Brasil 90% da agricultura depende das chuvas para irrigação; 25,4% da população brasileira vive na linha da pobreza, e grande parte vive no campo, o Agronegócio e Industria de Alimentos e Bebidas já são um dos maiores empregadoras do país; ⅓ de todo alimentos produzido é desperdiçado; o aumento do uso da terra e consequente emissão de GEE, estreitamente ligado ao desmatamento, bateu recordes sem precedentes em 2020; uma alimentação saudável hoje custa de 5 à 11 vezes mais caro que uma não saudável; é estimado que 150 espécies são extintas por dia e a perda da biodiversidade afeta diretamente a fertilidade dos solos para produção; o cenário de agravou ainda mais com a pandemia do Covid-19 e decorrente crise econômica.  

Então como lidar com desafios tão pungentes? Segundo Winston Churchill; nunca desperdiçando uma boa crise, ou seja todo desafio é uma, ou diversas oportunidades. Foi identificado na publicação da FOLU (Food and Land Use Coalition), que se seguirmos os caminhos identificados para a Transformação sustentável nos Sistemas de Alimentos e uso da terra, existe uma oportunidade de gerar 4.5 bilhões de dólares para a economia mundial por ano até 2030. Alguns dos caminhos identificados são: fomento a agricultura regenerativa; dietas saudáveis e sustentáveis; uso de energias renováveis; melhoria da subsistência rural e outros. O Brasil é o país mais biodiverso do mundo, tendo 61% do território coberto por vegetação nativa preservada segundo Embrapa, além de sermos uma importante potência de tecnologias de cultivo de alimentos, ambos em termos científicos/tecnológicos e de conhecimento tradicionais. Portanto temos a oportunidade de liderar a bioeconomia de baixo carbono e finalmente terminar a noção de dicotomia entre produção e preservação.   

Hoje temos sistemas bastante complexos e com grande distanciamento entre seus elos, que por sua vez dependem e impactam diversas partes interessadas. Um dos grandes problemas dos sistemas alimentares é a dificuldade de seus atores em se reconhecerem como parte do sistema, e então de agir em colaboração para superar desafios em comum. Frequentemente reina a perspectiva individual sobre um problema comum, no exemplo de sistemas alimentares, se tomarmos a perspectiva de um economista pensaríamos que o problema é a produtividade das culturas; de um profissional da saúde, seria a desnutrição e obesidade; de um ambientalista, seria a preservação dos recursos naturais; um sociólogo falaria que o problema é a condição de vida dos trabalhadores. Se cada um tentar solucionar seu problema de forma separada, o que observamos é que muitas vezes a solução de um agravo é o problema do próximo. Ainda no exemplo acima, se o economista otimizar a produtividade de lavouras sem conciliar o ambientalista, a preservação de recursos naturais pode ser comprometida. Em contraste, se olharmos para o problema como o mesmo, só visto por diferentes perspectivas que se complementam, poderíamos implementar projetos que superem as diversas esferas do desafio, oferecendo uma solução holística, onde cada um contribui com sua expertise, promovendo como resultado sistemas mais inclusivos, saudáveis, sustentáveis resilientes.

Existe um movimento atual, que busca o estreitamento dos elos da cadeia alimentar por meio da colaboração multissetorial. Esse movimento foi desencadeado, em grande parte, pela pressão do mercado, consumidores e ameaças globais como mudanças climáticas. A pressão, principalmente sob empresas, gerou o consenso de que não é possível um varejista, por exemplo, terminar com o desmatamento ilegal sozinho, ou uma processadora se tonrnar carbono neutra, sem engajar os demais atores do sistema. Para suprir as exigências de hoje e do futuro, empresas estão traçando metas ousadas de neutralidade de carbono, por exemplo, e só será possível cumpri-las por meio da colaboração perante a cadeia e o sistema como um todo.

Cada vez mais, a noção de rastreabilidade e consideração de impacto e/ou externalidade da produção é abordada pelo setor empresarial e financeiro. Com alimentos não é diferente, já é possível em alguns casos, ver de onde veio cada item em nosso carrinho de compras, medir a pegada ecológica de cada um e saber como descartá-los ou ciclá-los de forma responsável. Tecnologias, como Blockchain e Inteligência artificial, permitem que a rastreabilidade e transparência vão para frente. A rastreabilidade facilita a identificação e contabilidade dos impactos e externalidades de uma operação, de forma que as empresas possam geri-los e considerá-los em suas tomadas de decisão.      

É importante que as pessoas se conscientizem e encurtam o caminho que sua comida faz para chegar até o prato. Essa busca deu origem a um importante movimento chamado do Campo ao Garfo (Field to Fork), que começou na Europa, mas se espalhou rapidamente ao redor do globo. O movimento fomenta principalmente o encurtamento da cadeia produtiva de alimentos, visando aumentar a produção e consumo local, aproximando o consumidor do produtor, contando em grande parte com o uso de tecnologias. 

Uma vez que compreendermos cada etapa do caminho do alimento do `´campo ao garfo´´, e mapearmos os desafios e ações dos diferentes elos, poderemos identificar os gargalos para implementar e escalar projetos em colaboração. Com essa lógica, o sistema ganha força para se transformar e substituir questões como; o desperdício de alimentos por economia circular de resíduos; a ineficiência energética, por fontes de energia renováveis; a pobreza rural, por geração de empregos com maior qualificação para bioeconomia de baixo carbono; emissões de GEE por um mercado regulamentado de carbono; dietas de alto teor calórico e baixo nutritivo para dietas baseadas em plantas, saudáveis e sustentáveis.

As observações feitas acima, são amplas, pois o intuito aqui é gerar uma reflexão holística dos sistemas. Cada ator tem seu papel específico e relevante para a transformação, mas é preciso que todos se deem as mãos para que decisões possam ser tomadas de forma inclusiva, considerando todas as partes interessadas e não só aos acionistas.

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