Empresas brasileiras têm pouca diversidade — e falham em enfrentar o racismo ambiental

As tragédias climáticas afetam de forma desproporcional a população mais pobre. Por isso, futuros gestores de empresas e governos precisam, com urgência, de formação em justiça climática

Por Marina Grossi*

Qual é a relação entre um programa de equidade racial para formação de executivos e conselheiros de administração e os eventos climáticos extremos que, mais uma vez, têm se convertido em grandes tragédias para a população brasileira? Se, aparentemente, os dois temas pouco se conectam, dois conceitos novos os unem e ganham espaço nas conferências internacionais, as COPs: a justiça climática e o racismo ambiental.

Enquanto a justiça climática traduz a luta dos países e regiões pobres e vulneráveis contra as consequências do aquecimento global – historicamente causado pelos países com maior concentração de renda -, o racismo ambiental diz respeito à vulnerabilidade da população negra às questões ambientais. O termo, cunhado pelo ativista dos direitos civis afro-americano Benjamin Franklin Chavis em 1981, joga luz sobre a discriminação étnico-racial na elaboração de políticas públicas, além do direcionamento deliberado de comunidades pobres, geralmente formadas por pessoas pretas e pardas, para áreas ambientalmente insalubres.

Os dois temas fizeram parte de uma aula que proferi, no início de fevereiro, sobre mudanças climáticas no âmbito do Programa de Equidade Racial em Conselhos do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O programa, realizado em parceria com a Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial e a B3, visa ampliar a presença de pessoas negras em conselhos de administração e trata de diversos tópicos da atualidade. O encontro reuniu cerca de 30 alunos – profissionais pretos e pardos que já atuam em conselhos ou são executivos sênior de empresas e organizações de setores como financeiro, telecomunicações, consultoria, varejo e tecnologia. Abordei o contexto das mudanças climáticas para os negócios, seu enfrentamento (mitigação, adaptação, financiamento, perdas e danos) e a posição do Brasil no cenário global.

O encontro foi realizado uma quinzena antes de mais uma tragédia sem precedentes envolvendo o clima ganhar as manchetes dos jornais. O litoral norte de São Paulo, especialmente o município de São Sebastião, foi alvo de chuvas torrenciais, com acumulado de 682 mm em 24 horas, um volume jamais visto nos registros históricos brasileiros. O índice superou o da cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio, que registrou o acumulado de 530 mm em 24 horas em 2022 – ou seja, no período de um ano, houve dois eventos extremos de chuvas. O saldo foi devastador, com mais de 60 mortos, mais de 4.000 pessoas desabrigadas ou desalojadas e incontáveis perdas materiais.

As tragédias climáticas afetam de forma desproporcional a população mais pobre e vulnerável – por isso é tão importante que as temáticas da justiça climática e do racismo ambiental façam parte da formação das futuras lideranças, sejam das empresas ou dos quadros governamentais. Não à toa, esses conceitos foram abordados no curso de formação de conselheiros.

A agenda ambiental, social e de governança, que ganhou repercussão na sigla ESG, requer uma mudança de posição das empresas. A crise climática, em especial, já impacta os negócios e vai demandar inovação por parte das lideranças e dos níveis estratégicos de tomada de decisão. E é inequívoca a conexão entre inovação e diversidade e inclusão, evocada por diferentes estudos. Um deles, da consultoria Accenture, realizado junto a 18 mil profissionais em 27 países, concluiu que empresas mais diversas são 11 vezes mais inovadoras do que a concorrência. Outro mapeamento, da revista “Harvard Business Review”, analisou 163 empresas por 13 anos e concluiu que, entre as que têm mais mulheres nos cargos de liderança, há maior abertura para mudanças, menor propensão a risco e maior foco em inovação.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com mais de 100 empresas associadas cujo faturamento somado equivale a quase 50% do PIB brasileiro

compartilhe:

Assine nossa newsletter

Informe seu e-mail e receba os nossos conteúdos. Respeitamos a privacidade das suas informações não compartilhando-as com ninguém.

Notícias relacionadas

Confira as notícias mais atuais e relevantes para ficar por dentro do que está em debate na agenda do Desenvolvimento Sustentável.

Publicações relacionadas

Quer se aprofundar ainda mais neste assunto? Confira aqui outras publicações relacionadas a esta mesma temática.

Eventos relacionados

Confira nossos próximos eventos relacionados a este tema e junte-se a nós para debater e compartilhar melhores práticas.