De enchentes no Rio Grande do Sul a incêndios na Península Ibérica, passando por um vendaval histórico no Rio de Janeiro e uma avalanche glacial no Himalaia, os últimos anos reforçam uma tendência observada pela ciência do clima: eventos extremos estão mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis. Entenda o que está por trás desse padrão global.
Recentemente, notícias sobre desastres climáticos se multiplicaram nos noticiários de diferentes continentes. No Brasil, o Rio Grande do Sul foi palco de enchentes severas em 2024, enquanto em 2026 o Rio de Janeiro foi atingido por um dos vendavais mais fortes de sua história recente. Na Europa, Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia enfrentam uma das piores temporadas de incêndios florestais já registradas. No Himalaia, uma avalanche de gelo e rocha no Nepal provocou uma tragédia de grandes proporções. Embora sejam eventos de naturezas distintas hidrológicos, atmosféricos, geológicos, todos têm algo em comum: reforçam um padrão que cientistas do clima vêm alertando há anos.
Um retrato dos eventos recentes
O Rio Grande do Sul viveu, em maio de 2024, o que o próprio governo estadual classificou como a maior catástrofe climática da história do estado. Uma sequência de chuvas históricas, Porto Alegre registrou 452 mm acima da média apenas no mês de maio, e cidades como Caxias do Sul tiveram acumulados mais de 770 mm acima do esperado fez o nível do Rio Guaíba atingir a marca recorde de 5,37 metros na capital gaúcha. O desastre deixou 184 mortos, dezenas de desaparecidos e chegou a afetar mais de 700 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas em 425 municípios do estado, em um episódio que segue como um dos maiores marcos de desastre climático já registrados no Brasil, com o governo federal destinando mais de R$ 100 bilhões em ações de recuperação desde então.

No Rio de Janeiro, um vendaval com rajadas de até 105 km/h atingiu o estado em 29 de julho, entrando para o top 3 dos maiores registros de vento da história local. O temporal deixou 1,9 milhão de imóveis sem energia elétrica, provocou três mortes e levou a capital ao mais alto estágio de emergência da Defesa Civil, com milhares de famílias sem luz por dias.

Na Península Ibérica, 2026 já é considerado, para diversos países europeus, o pior ano em área queimada por incêndios florestais das últimas 15 décadas, Portugal e Espanha registraram alta de 100% no número de incêndios em relação a 2025, enquanto a Itália teve seu quinto pior ano do período. Ondas de calor com temperaturas acima de 40°C, somadas à seca prolongada, criaram condições ideais para a propagação do fogo, levando a evacuações em massa na França, na Espanha e mobilizando reforços internacionais de combate a incêndio entre os países.

No Nepal, em 26 de agosto, uma avalanche de gelo e detritos rompeu uma geleira no Parque Nacional de Langtang, na fronteira com a China, gerando um fluxo de destroços que percorreu cerca de 100 quilômetros e devastou comunidades ao longo dos rios Lhende Khola, Bhotekoshi e Trishuli episódio com energia liberada comparável a um terremoto de magnitude 5,2, que destruiu infraestrutura, incluindo usinas hidrelétricas e uma rodovia estratégica entre os dois países.

Por que esses eventos estão mais frequentes?
Cientistas do clima apontam um conjunto de fatores interligados para explicar o aumento na frequência e na intensidade de eventos climáticos extremos ao redor do mundo:
- Aquecimento global: o aumento da temperatura média do planeta intensifica o ciclo hidrológico, atmosferas mais quentes retêm mais umidade, o que favorece chuvas mais intensas e concentradas, ao mesmo tempo em que agrava períodos de seca em outras regiões;
- Padrões climáticos naturais amplificados: fenômenos cíclicos como o El Niño e a La Niña sempre existiram, mas cientistas apontam que suas variações têm se tornado mais extremas em um planeta mais aquecido, ampliando tanto os períodos de seca quanto os de chuva excessiva;
- Derretimento acelerado de geleiras: o aquecimento das regiões montanhosas e polares vem tornando geleiras mais instáveis, aumentando o risco de rupturas repentinas como no caso da avalanche glacial no Nepal em um fenômeno que passou a ser cada vez mais monitorado por geólogos em cadeias montanhosas como o Himalaia e os Andes;
- Condições ideais para incêndios: ondas de calor mais longas e intensas, combinadas com solos mais secos, criam um ambiente propício à propagação do fogo, um padrão observado tanto na Europa quanto em outras regiões do mundo, incluindo o Brasil;
- Urbanização e ocupação de áreas de risco: parte do aumento no impacto desses eventos também está ligada a fatores humanos como o crescimento urbano em áreas historicamente vulneráveis a enchentes, deslizamentos e ventos extremos, o que amplia os danos mesmo quando a intensidade do fenômeno em si não é inédita.
O que isso significa para governos, empresas e sociedade
Diante desse cenário, a adaptação climática deixa de ser uma pauta de longo prazo e se torna uma prioridade imediata de gestão de risco tanto para governos quanto para o setor produtivo. Investimentos em sistemas de alerta antecipado, infraestrutura resiliente, planejamento urbano adequado e cooperação internacional para monitoramento de riscos geológicos e climáticos aparecem como caminhos centrais para reduzir os danos humanos e econômicos desses eventos, que tendem a se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas.
Adaptação climática na prática: o papel do CEBDS junto ao setor empresarial
Dada a inevitabilidade dos eventos extremos, a adaptação climática deixa de ser uma pauta de longo prazo para se consolidar como uma prioridade estratégica imediata. Para o setor produtivo, isso vai muito além de responder a desastres: exige uma transformação contínua e proativa. Torna-se indispensável incorporar os riscos climáticos, físicos e financeiros ao coração do planejamento dos negócios, repensando cadeias de suprimento, infraestruturas e operações para garantir a resiliência e a continuidade socioeconômica diante de choques cada vez mais severos.
É exatamente com esse foco em soluções estruturais que o tema é tratado no CEBDS. A adaptação corporativa está no centro da atuação das Câmaras Temáticas de Água e de Clima, Energia e Finanças Sustentáveis, que reúnem empresas associadas para construir diretrizes práticas, gerenciar riscos hídricos e impulsionar o financiamento de projetos resilientes. Dessa forma, o CEBDS apoia o setor empresarial na antecipação de vulnerabilidades e no desenvolvimento de modelos de negócios adaptados, transformando o maior desafio da nossa era em um motor de inovação, segurança e competitividade sustentável.

