Os riscos globais, o “S” do ESG e oportunidades para o Brasil

Se trilharmos os caminho certo até 2030, chegaremos em 2050 ao Brasil que queremos: mais próspero, resiliente e inclusivo

Por Marina Grossi*

Como em todo início de ano, o Fórum Econômico Mundial divulga, às vésperas do encontro de lideranças realizado em Davos, na Suíça, o Relatório de Riscos Globais, estudo que reúne as percepções de mais de 1.200 especialistas das áreas de negócios, academia, governos, sociedade civil e comunidade internacional sobre os principais fatores de risco para a economia global. Já faz um tempo que as questões ligadas à temática ambiental, social e de governança (ESG) aparecem com frequência no topo das preocupações mundiais. Neste ano não foi diferente, embora haja uma expressiva diferença quando se olham os riscos de curto prazo (até dois anos) e de longo prazo (dez anos) apontados pelo relatório.

Os cinco principais riscos para os próximos dois anos elencados pelo estudo são: a crise do custo de vida; desastres naturais e eventos climáticos extremos; confrontos geoeconômicos; falha em mitigar as mudanças climáticas; erosão da coesão social com polarização da sociedade. Como destaca o relatório, o retorno a um “novo normal” após a pandemia de covid-19 foi rapidamente interrompido pela eclosão da guerra na Ucrânia, dando início a uma nova série de crises de abastecimento de alimentos e energia – desencadeando pressões inflacionárias e aumentando o fosso entre ricos e pobres.

Já quando se observam os riscos para os próximos dez anos, os quatro maiores fatores de preocupação apontados pelos especialistas são de caráter ambiental: falha em mitigar as mudanças climáticas; falha na adaptação às mudanças climáticas; desastres naturais e eventos climáticos extremos; perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas; na quinta posição estão as migrações involuntárias em larga escala, que podem ser causadas por diversos fatores, inclusive questões ambientais. No total dos dez maiores riscos apontados para a próxima década, seis estão ligados a questões de natureza socioambiental.

Assim, as dificuldades do presente impactam a perspectiva de risco no curto prazo: o relatório destaca o retorno de riscos já familiares, como a inflação, custo de vida elevado, guerras comerciais, saídas de capital de mercados emergentes, agitação social generalizada, confronto geopolítico e até mesmo o espectro de uma guerra nuclear. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo menos um terço da economia global deve enfrentar um 2023 com recessão. Este cenário repleto de incertezas abre uma nova era de baixo crescimento, baixo investimento global e desglobalização, um declínio nos índices de desenvolvimento humano, que se soma à crescente pressão das mudanças climáticas em uma janela cada vez menor para se evitar que a temperatura do planeta se eleve acima de 1,5°C, objetivo do Acordo de Paris.

O cenário traçado pelo relatório do Fórum Econômico Mundial é desafiador tanto para líderes empresariais quanto para formuladores de políticas públicas. As questões sociais, o “S” do ESG, tornam-se prementes nesse panorama de incertezas econômicas e frente a um agravamento das desigualdades sociais desde o início da pandemia, como mostra outro estudo divulgado no Fórum de Davos, pela rede de organizações da sociedade civil Oxfam. Pela primeira vez em 30 anos, aponta a entidade, a riqueza extrema e a pobreza extrema cresceram simultaneamente.

Em todo o mundo, 81 bilionários detém mais riqueza do que 50% do mundo – sendo que o 1% mais rico detém 45,6% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre detém a miserável fatia de 0,75%. Somadas, a pandemia e a guerra interromperam avanços na redução da pobreza extrema e acentuaram desigualdades, sobretudo no acesso à saúde, educação, alimentos e energia.

Combater a pobreza e a desigualdade em um mundo já castigado pelos impactos das mudanças climáticas torna-se, assim, uma tarefa dupla. No Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), vislumbramos que o caminho é combinar a diminuição do abismo social com atividades econômicas ligadas à transição para o baixo carbono, em um projeto de desenvolvimento que cabe muito bem ao Brasil. Na publicação “Visão 2050”, que lançamos em 2021, propomos caminhos para o futuro a partir de oito temas prioritários: pessoas, cidades, economia circular, água e saneamento, biodiversidade, alimentos, energia e finanças. O documento, um verdadeiro guia para os negócios e a sociedade, foi formulado a partir das contribuições de 4.000 especialistas.

O “Visão 2050” vislumbra que é possível para o Brasil chegar até a metade do século com segurança energética e emissões de carbono negativas, com universalização do acesso à água potável e saneamento, com um modelo de desenvolvimento que respeita a sociobiodiversidade, com tecnologia e educação voltadas à economia do cuidado, entre outros pontos. O caminho passa por superar a falsa dicotomia entre preservação e desenvolvimento econômico e pela promoção de investimentos e negócios de caráter inclusivo e regenerativo. Cuidar dos nossos biomas, combatendo de forma firme o desmatamento ilegal, nossa maior mácula, dará ao país meios de promover uma bioeconomia da floresta em pé, gerando novos negócios e prosperidade.

A questão é urgente, visto que as mudanças no uso da terra representam 49% das nossas emissões de gases de efeito estufa. Dados recentes do Imazon apontam que o desmatamento da Amazônia entre os anos de 2019 e 2022 alcançou 35,1 mil km², pior índice dos últimos 15 anos e uma alta de quase 150% em relação ao quadriênio anterior (2015-2018). O CEBDS vê como positiva a sinalização de que o combate à perda de florestas receberá atenção estratégica do novo governo, com ações transversais envolvendo diversos ministérios.

O setor empresarial partilha dessa visão e pode contribuir com o poder público no enfrentamento da questão. Nosso Conselho de Líderes, formado por 95 CEOs de grandes empresas associadas, receberá, em fevereiro, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, para debater caminhos para buscar um modelo de desenvolvimento que freie a perda dos ecossistemas e, mais do que isso, busque a regeneração, em sintonia com a economia de baixo carbono.

O futuro se constrói hoje: por isso, precisamos fazer o nosso melhor nesses próximos anos, conhecidos como a década de implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda 2030 das Nações Unidas. Assim, trilhemos o caminho certo até 2030 e chegaremos, em 2050, ao Brasil que queremos – mais próspero, resiliente e inclusivo.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com mais de 100 empresas associadas cujo faturamento somado equivale a quase 50% do PIB brasileiro

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