O elo entre clima e segurança alimentar

Por Marina Grossi para o Valor Econômico*

Do arroz ao café, passando pelo cacau e azeite, as condições climáticas extremas estão elevando os preços de alimentos básicos em todo o globo,  trazendo novas pressões inflacionárias em um mundo já impactado pela pandemia, guerras e políticas de ajuste fiscal. É o que mostrou estudo conduzido por diversas instituições europeias, entre elas o Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impactos Climáticos, da Alemanha, que analisou 16 alimentos em 18 países que tiveram seus preços disparados entre 2022 e 2024 em razão de chuvas intensas, secas ou calor extremo.

Os dados reiteram o que os consumidores vêm sentindo na pele ao ir às compras. Um exemplo é o café: os preços globais tiveram uma alta de 55% em agosto de 2024, efeito direto da seca registrada no Brasil no ano anterior; a variedade Robusta, originária do continente africano, subiu 100% em 2024 após calor recorde registrado na Ásia, especialmente no Vietnã. O arroz teve alta de 48% após onda de calor no Japão, que registrou as temperaturas mais elevadas desde 1946. No México, frutas e verduras ficaram 20% mais caras após a seca de 2023, uma das piores do país. O azeite também sofreu com a estiagem na Itália e Espanha, com preços 50% mais altos. O cacau, por sua vez, disparou 280% devido às ondas de calor na Costa do Marfim e em Gana, maiores produtores globais.

Outro estudo, divulgado pela FAO/ONU às vésperas da Conferência sobre Sistemas Alimentares, realizada em julho de 2024 em Adis Abeba, na Etiópia, reforça que desde 2020 a inflação dos alimentos tem superado a inflação geral. Esse fenômeno alcançou o pico em 2023, quando a alta dos alimentos chegou a 13,6%, 5,1 pontos percentuais acima da taxa média global de 8,5%. Os dados do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2025” (SOFI, na sigla em inglês) têm acendido um alerta sobre a segurança alimentar, posto que o aumento dos preços dos alimentos impacta sobremaneira o orçamento das famílias mais vulneráveis.

Um fator geopolítico recente também contribui para o encarecimento de alimentos nos Estados Unidos e pressiona o agronegócio brasileiro: o “tarifaço” anunciado pelo presidente Donald Trump, em vigor desde agosto. A medida impõe tarifas de até 50% sobre produtos como café, carnes e frutas. Nos EUA, encarece o custo de vida dos consumidores; no Brasil, aumenta a incerteza para exportadores que já enfrentam volatilidade climática e comercial. Especialistas alertam que o encarecimento de insumos exportados para um mercado tão relevante pode ainda pressionar preços internos, elevar custos de produção e gerar desemprego no agro.

Mas há boas notícias. Entre 2022 e 2024, o Brasil saiu do mapa da fome, com menos de 2,5% da população em condição de subalimentação. O avanço é notável em comparação a décadas anteriores — entre 2000 e 2002, 10,4% dos brasileiros estavam subnutridos. Esse progresso resulta da combinação de políticas de redução da pobreza, geração de renda e incentivo à agricultura familiar. Manter esse patamar, porém, exige vigilância constante e integração entre combate à fome e enfrentamento da crise climática, já que eventos extremos retroalimentam a inflação dos alimentos.

O Brasil tem pautado essa agenda internacionalmente. No encontro do G20 realizado no Rio de Janeiro em novembro de 2024, o país lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, concebida para acelerar políticas voltadas à segurança alimentar diante do agravamento da crise climática. Com a realização da COP30, o tema tende a ganhar ainda mais visibilidade: a agricultura e os sistemas alimentares estarão no centro dos debates, com discussões concentradas nos dias 10 e 20 de novembro. Agricultura e pecuária também figuram entre os seis eixos prioritários definidos pela Presidência da COP30 para a descarbonização da economia, ao lado de energia, florestas, mineração e transportes. A conferência será ainda vitrine para práticas sustentáveis já adotadas no Brasil e oportunidade para atrair financiamento e escalar iniciativas de impacto.

Esse tema ganhou destaque já na COP28, em Dubai, em 2023, quando foi lançada a Agenda de Ação para Paisagens Regenerativas (AARL), movimento que busca catalisar US$ 6 bilhões para a agricultura regenerativa e o uso sustentável da terra, em cadeias ligadas a 80 commodities agrícolas em 110 países. A meta é facilitar a transição para práticas regenerativas em 160 milhões de hectares até 2030, aumentando a saúde do solo, a resiliência climática dos sistemas alimentares e a subsistência de 3,6 milhões de agricultores.

O Brasil foi escolhido como um dos cenários de implementação, com dois projetos-piloto no Cerrado e na Amazônia paraense, dentro do LAB (Acelerador de Paisagens Regenerativas Brasil). O programa une atores públicos e privados para impulsionar a adoção de práticas regenerativas até o fim da década, partindo de três pilares: financiamento, métricas viáveis e políticas públicas. O LAB é liderado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) e o Boston Consulting Group (BCG), com apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e já publicou dois estudos mostrando o potencial das paisagens regenerativas. Só no Pará,  a transição para paisagens regenerativas representa uma oportunidade total de investimento de R$ 116 bilhões até 2040.  Iniciativas como essa acompanham a transformação das cadeias globais de valor, com empresas adotando metas de descarbonização, exigindo insumos produzidos de forma sustentável e alinhados a regulações como a EUDR, lei europeia para produtos livres de desmatamento.

Está cada vez mais claro que planos de combate à insegurança alimentar precisam andar junto com o enfrentamento da emergência climática e da perda da biodiversidade. Embora o futuro aponte para um cenário geopolítico conturbado, marcado pela volatilidade de preços e pela crise do custo de vida, governos, empresas e sociedade civil precisam atuar de forma integrada para garantir resiliência e construir um outro panorama — em que nenhum cidadão seja privado de comer, nem de habitar um planeta equilibrado.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial

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