“Um ano de extremos – mas também de boas colheitas”

Ano de extremos climáticos também foi marcado por avanços importantes no enfrentamento à crise do clima

Um ano de extremos: 2024 deve terminar como o ano mais quente vivido na Terra. Novembro foi o 16º mês, em um período de 17 meses, em que a temperatura média global superou 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais. E, como o último Balanço Global do Acordo de Paris deixou claro, o mundo está fora da rota na redução de emissões para se manter dentro dos limites estabelecidos pelo tratado. Por essa razão, este foi um ano em que vivenciamos na pele os extremos climáticos e seus impactos. No Brasil, sofremos com tragédias ligadas a fortes chuvas, que afetaram um Estado inteiro como o Rio Grande do Sul, e também os efeitos de secas extremas, que levaram a queimadas que deixaram boa parte do país com ar insalubre, com perdas imensuráveis para nossa biodiversidade. Mais do que nunca, estamos sendo desafiados por este “novo normal” do clima, e urge dar respostas à altura para enfrentar a emergência climática e seus desdobramentos.

Mudanças estão acontecendo, mas ainda em um ritmo aquém da velocidade necessária para frear os impactos do aquecimento global. As emissões de gases de efeito estufa (GEE) globais seguem crescendo e, do jeito que as coisas estão, o mundo caminha para um aumento da temperatura global entre 2,6ºC e 2,8ºC até o fim do século, segundo o relatório Lacuna de Emissões da ONU, lançado às vésperas da COP29, realizada em Baku, Azerbaijão.

Se as práticas de negócios persistirem – o chamado business as usual – a Terra corre o risco de aquecer 3,1ºC, o que colocaria em risco nossa própria existência. Ainda está dentro do alcance da humanidade mudar essa trajetória e, para isso, será preciso reduzir as emissões globais em 28% até o fim desta década e 37% até 2035, o novo marco a ser incluído nos compromissos das Nações, as chamadas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada, na sigla em inglês).

O Brasil apresentou na COP29 sua nova NDC, já alinhada com a revisão necessária dos compromissos e trazendo o desafio de reduzir as emissões entre 59% e 67% até 2035, em comparação aos níveis de 2005. Outro avanço importante, tanto em nível global quanto local, foram os mercados de carbono. A aprovação, em Baku, dos artigos 6.2 e 6.4 do Acordo de Paris, que estavam em negociação há nove anos, dão ao mundo a oportunidade de implementar um mercado internacional de compra e venda de créditos de carbono, com regras claras e a chancela das Nações Unidas.

Aqui no Brasil, tivemos a aprovação pelo Congresso Nacional, e posterior sanção, pelo Executivo, da lei que regulamenta o tema nacionalmente, instituindo o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). O mercado de carbono era uma bandeira da vanguarda do setor empresarial brasileiro desde 2016. Outros avanços importantes foram o Pacto de Transformação Ecológica firmado entre os Três Poderes, de modo a nortear o desenvolvimento do país e a adaptação às mudanças climáticas; e o marco legal do hidrogênio de baixo carbono, que deve contribuir para a atração de investimentos na direção da transição energética e da competitividade da indústria brasileira. O país também conseguiu reduzir o desmatamento ilegal em níveis significativos tanto na Amazonia quanto no Cerrado, passo fundamental para reduzirmos nossas emissões.

Na presidência do G20, obtivemos vitórias nas três frentes prioritárias: o combate à fome, a agenda do desenvolvimento sustentável e o redesenho da governança global. A cúpula de líderes realizada no Rio de Janeiro em novembro registrou presença recorde de chefes de Estado e reforçou temas de interesse do Sul global, como o compromisso com o combate à crise climática e com a redução da pobreza. E ainda aprovamos os 10 Princípios de Alto Nível sobre Bioeconomia, que traz norteadores para balizar discussões diplomáticas e comerciais sobre o tema, inserindo a bioeconomia no multilateralismo.

Esses resultados foram boas colheitas em meio a tempos inóspitos, que ajudaram a reposicionar o Brasil como um protagonista fundamental na defesa da agenda da sustentabilidade. Passos firmes que devem se consolidar em 2025, ano em que o país sediará, pela primeira vez, uma conferência da ONU sobre clima, em Belém. A COP30 já movimenta grandes expectativas e fará com que os olhos do mundo se voltem para a Amazônia, com discussões imprescindíveis para pavimentar o caminho que queremos para o mundo nos próximos anos. Um dos principais desafios será contribuir para o avanço do financiamento necessário para os países em desenvolvimento conduzirem sua transição energética, a adaptação e a justiça climática. A COP30 já é histórica, e devemos nos mobilizar, como sociedade brasileira, para que ocorra um processo definitivo rumo ao novo paradigma de desenvolvimento de que a humanidade precisa.

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