5 passos para construir uma Cadeia de Suprimentos Sustentável

 

5 passos para construir uma Cadeia de Suprimentos Sustentável, ou:
O que Suprimentos tem a ver com Gestão Ambiental?

No último mês de novembro participei de um seminário sobre Gestão Ambiental organizada pela FIRJAN que, entre outras coisas, me inspirou a escrever este novo artigo.

Uma das coisas que me chamou a atenção foi que a FIRJAN convidou a área de Suprimentos ao debate sobre Gestão Ambiental. Um observador mais atento certamente perceberá que algo diferente está acontecendo. E esse movimento é recente.

Eu me lembro que na década dos anos 2000, e quando eu trabalhava exclusivamente em consultoria no Supply-Chain, tínhamos acesso a alguns sites, papers, e documentos sobre sustainable & responsible sourcing. Mas no dia a dia, nos projetos com as mais diversas empresas, não havia nenhum eco nesses temas. O foco era unicamente em preço, preço, preço, e realmente falar de uma Cadeia de Suprimentos Sustentável parecia papo de outro planeta.

Mesmo projetos que claramente traziam uma redução de custo em um cálculo do Total Cost of Ownership (TCO), como itens que trazem redução de consumo de energia, mas que dependiam de um investimento que se pagava a partir de 3 ou 5 anos, não eram fáceis de emplacar porque, de novo, o foco era no preço do item, com redução de custo naquele mesmo exercício fiscal.

Em 2011, quando começamos a estruturar a Cadeia de Suprimentos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio 2016, vimos uma oportunidade de colocar aqueles temas em prática, já que a sustentabilidade passou a ter destaque nos últimos Jogos, e já que Londres 2012 tinha dado bons passos nessa direção. Portanto, nos cabia partir daí e evoluir ainda mais o modelo.

Depois de trocar informações com outros profissionais que vinham atuando em temas semelhantes, consultar outras empresas, buscar nas nossas experiências pessoais e estudar publicações sobre o tema, chegamos a um modelo de 5 passos para estruturar uma cadeia de suprimentos sustentável. A metodologia pode ser adotada por qualquer empresa, fazendo adaptações às suas particularidades. São estes 5 passos que vou apenas pincelar em algumas linhas aqui, para não me estender demais, já que cada passo daria um novo artigo por si só.

O primeiro passo é (1) Estabelecer Requerimentos Claros. É preciso definir o que vai se exigir, e o porquê. Mas é quase impossível adotar requerimentos específicos para tudo o que passa no Supply-Chain da empresa, portanto é preciso focar no que é relevante. Nossa sugestão é: primeiro definir regras básicas que todos os fornecedores devem obedecer. E segundo, identificar quais são as categorias de compra que têm maior impacto em termos de sustentabilidade e ai sim, definir os requerimentos específicos para mitigar impactos negativos ou alavancar impactos positivos nestas categorias. Exemplos: um requerimento geral pode ser o de que só se aceita fornecedores que contratam seus funcionários no regime da CLT. Já um requerimento específico para a contratação de, digamos, frete rodoviário, pode ser o de que se utilize combustíveis mais limpos que reduzem a pegada de carbono. No nosso caso, desenvolvemos uma série de manuais que aterrissam esses requerimentos gerais e específicos.

O segundo passo é (2) Desenvolver e Capacitar o Mercado. De nada adianta lançar uma série de manuais e requerimentos específicos, se nenhuma empresa fornecedora sequer os conhece. Corre-se o risco de se lançar uma concorrência onde nenhuma empresa pode ser contratada, pois nenhuma atinge aos requerimentos mínimos obrigatórios. Portanto, é importante comunicar com antecedência o que será exigido, e explicar aos potenciais fornecedores como chegar ao patamar que esperamos. Nossa sugestão é utilizar os canais que já existem para se comunicar em grande escala com o mercado em geral e com setores específicos. Neste sentido fizemos, e fazemos até hoje, programas com o SEBRAE, as Federações de Indústria ao longo do país (como a FIRJAM, FIESP, FIEMG, por exemplo), a CNI, e até mesmo Consulados e Câmaras de Comércio de outros países, que ajudam a divulgar quais são esses requerimentos e criam programas específicos para desenvolver o mercado fornecedor (interno e externo).

O terceiro passo é (3) Utilizar os Requerimentos nos Processos de Concorrência. É uma questão de coerência. Se foi dito que aqueles requerimentos seriam necessários, é importante que eles sejam realmente utilizados entre os critérios que vão definir o(s) vencedor(es) da concorrência. Neste tema, conseguimos fazer um trabalho pioneiro com o Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – CEBDS, que se materializou no Manual de Compras Sustentáveis. A ideia foi levantar e discutir com grandes empresas brasileiras, ou estabelecidas no Brasil, como a sustentabilidade era incluída nos processos de concorrência, e a partir disso criar uma metodologia que fosse aceita por todos como as melhores práticas de mercado. O Manual já é utilizado por muitas empresas, e está disponível gratuitamente para quem quiser consultá-lo.

Chegamos ao quarto passo, que é (4) Monitorar a Conformidade dos Fornecedores Contratados. É claro. Um determinado fornecedor foi contratado porque, em sua proposta ele, entre outras coisas, disse que iria seguir os requerimentos de sustentabilidade exigidos. Mas como se garante? Isso pode passar por exigir selos de certificação da origem da matéria prima (como o FSC para itens de madeira), e monitorar o processo produtivo em relação à qualidade, impacto ambiental e práticas trabalhistas, por exemplo. Novamente, o segredo é valer-se do que já existe, como as certificações, e os métodos de monitoramento da produção.

Finalmente, o quinto passo é (5) Garantir a Correta Destinação após o uso. Na indústria tradicional isso se trata de garantir o correto tratamento dos resíduos e rejeitos, criar mecanismos de logística reversa, e por ai vai. No caso específico do Rio 2016, além disso, trata-se de garantir de dar um uso aos produtos que utilizamos nos Jogos. A maior parte dos materiais que compramos são utilizados por muito pouco tempo, e em uma quantidade exorbitante. É importante saber o que será feito disso depois, se vamos alugar esses itens, se vamos revende-los, ou doá-los após o uso. E seja na indústria tradicional, ou no nosso caso, essa estratégia precisa ser pensada e definida antes da, e durante a contratação.

Como disse no começo, essa metodologia de 5 passos pode ser adaptada de várias formas, mas os principais pontos que se deve levar em conta quando se decide, de fato, adotar uma prática de cadeia de suprimentos sustentável estão todos ai.

Pra finalizar, acho importante destacar que a área de suprimentos, principalmente quando ela é centralizada dentro da organização, tem um papel fundamental na implementação da política de sustentabilidade na empresa, uma vez que ela é responsável por contratar quase todos os materiais e os serviços. Isso significa que o profissional da área tem que entender quais são os objetivos de sustentabilidade da organização, e traduzi-los em especificações e escopo nos processos de contratação. E para que isso aconteça, as áreas de Sustentabilidade e Suprimentos precisam estar em constante diálogo. Caso contrário, o discurso de sustentabilidade corre o risco de ser inconsistente com a prática.

Fonte: João Saraiva Linked in

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