Assegurando o Crescimento Econômico e a Sustentabilidade Ambiental no Brasil

Por Janet Ranganatha (WRI) e Marina Grossi

A economia do Brasil tem estado em franco crescimento. Ao longo da última década, subiu da nona para a sexta maior economia do mundo. Embora este crescimento tenha trazido muitos benefícios socioeconômicos, acarretou uma desvantagem: impactos ambientais significativos. O Brasil tem uma das maiores taxas de desmatamento  do mundo e a poluição ameaça o abastecimento de água potável no País. Apesar de uma recente queda nas emissões nacionais de gases de efeito estufa, as emissões agrícolas e a demanda energética continuam a crescer.

Essa faca de dois gumes levanta uma pergunta importante: o Brasil, com tantas hotspots de biodiversidade e a maior floresta tropical do mundo, vai ter que optar entre o crescimento econômico e a conservação ambiental? Um grupo de grandes empresas acredita que não e está começando a demonstrar que o setor empresarial no Brasil pode ser as duas coisas: sustentável e lucrativo.

Um novo tipo de parceria

Ao longo do último ano, oito multinacionais vem trabalhando no âmbito da Parceria Empresarial pelos Serviços Ecossistêmicos (PESE) para explorar como seus negócios impactam e ao mesmo tempo dependem do meio ambiente. Os participantes abrangem setores tão diversos quanto varejo (Walmart), mineração (Anglo American, Vale e Votorantim), cosméticos (Natura), agronegócios (Grupo André Maggi) e alimentos e bebidas (Danone e PepsiCo).

A PESE aborda a relação entre o desempenho corporativo e os serviços ecossistêmicos. O termo refere-se à gama de benefícios fornecidos pela natureza, como a provisão de água limpa e a polinização de culturas. Esses serviços podem sustentar o desempenho de uma empresa, mas são, muitas vezes, desconsiderados.

As empresas da PESE estão avaliando seus impactos e dependências sobre os serviços ecossistêmicos com uma ferramenta chamada Revisão Corporativa de Serviços Ecossistêmicos(RSE). As lições que estão aprendendo começam a moldar suas práticas comerciais – e poderiam ser um exemplo poderoso para inspirar outras empresas no Brasil.

Às empresas sócias da PESE se juntaram o World Resources Institute (WRI), o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces) e a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID).

Ganhos na cadeia de fornecimento para os negócios e para a natureza

Veja a agricultura, por exemplo. É um vetor importante do desmatamento no Brasil. A resultante perda de serviços ecossistêmicos florestais, como a regulação do clima e da água, ameaça, por sua vez, o fornecimento de produtos agrícolas no País. As empresas, portanto, enfrentam riscos operacionais e de reputação como resultado dessas alterações ambientais.

As empresas da PESE estão começando a identificar e mitigar esses riscos relacionados ao meio ambiente. Por exemplo:

O Grupo André Maggi, um dos principais atores da soja no Brasil, está usando o RSE para ajudar a assegurar um abastecimento sustentável de combustível de biomassa de madeira para fornecer energia para suas operações na Amazônia. As equipes de sustentabilidade e operações da empresa se juntaram para desenvolver uma estratégia de compras de biomassa mais econômica e mais resiliente para a região.

A Walmart está enfrentando os desafios ambientais associados ao seu fornecimento de carne. Como as fazendas de gado ocupam mais de 70 porcento da região desmatada da Amazônia, a Walmart estabeleceu a meta de ter uma cadeia de fornecimento de carne com desmatamento zero até 2015. Para ajudar a alcançar esta meta, a RSE da Walmart irá examinar as práticas pecuárias que reduzem o desmatamento.

A Danone, uma multinacional de laticínios, está se concentrando na avaliação dos riscos e oportunidades estratégicos da sua principal linha de produtos infantis. Em colaboração com uma ONG local, Ipê, identificou formas de ajudar os produtores de leite de sua cadeia de fornecimento a melhorar a qualidade da biodiversidade e do solo nos seus pastos para assim melhorar a qualidade do leite e baixar os custos operacionais da empresa.

Mudar a mentalidade de minimizar impactos para uma de maximizar os benefícios

A mitigação dos riscos ambientais não é só bom para as empresas  – é bom para o Brasil.

Por exemplo, a produção do azeite de dendê está frequentemente associada ao desmatamento de florestas tropicais e sua substituição pela monocultura do dendê, com fortes impactos no meio ambiente, especialmente na Malásia e na Indonésia. Ao buscar maior sustentabilidade na cadeia de fornecimento de cosméticos no Brasil, o Programa de Pesquisa em Bioagricultura da Natura estudou a produção orgânica do azeite de dendê em sistemas diversificados de agrosilvicultura, compostos de diversas plantas, nativas e comercialmente viáveis, cultivadas na mesma unidade de produção. A Natura está identificando formas de criar impactos positivos ambientais e sociais do azeite de dendê da agrosilvicultura na Amazônia brasileira. Essas incluem melhoria da segurança alimentar dos agricultores, conservação dos recursos naturais e produção de matéria prima mais sustentável para seus cosméticos.

As empresas de mineração Anglo American e Votorantim integraram os serviços ecossistêmicos ao processo de avaliação de impacto ambiental (AIA) da concepção de novas minas. A compreensão de como a mineração tem impactos e também depende dos serviços ecossistêmicos permite aos tomadores de decisão irem além da mitigação dos impactos ambientais negativos, rumo à capitalização dos benefícios de um melhor manejo do ecossistema. As oportunidades descobertas incluem a redução das emissões de gases de efeito estufa e dos custos operacionais da mineração ao mesmo tempo em que geram renda e desenvolvimento na região.

É claro que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para descolar o crescimento econômico da degradação ambiental. As ações de umas poucas empresas não será suficiente para realmente romper a ligação. Mas a PESE e outras iniciativas semelhantes demonstram que a conservação ambiental é boa para os negócios. Se um número suficiente de empresas começar a enxergar a conexão entre sustentabilidade e forte crescimento, poderá se criar uma verdadeira mudança no setor empresarial no Brasil – e em seus ecossistemas.

 

Fonte: GreenBiz

Share:

Sign up for our newsletter

Enter your email and receive our content. We respect the privacy of your information by not sharing it with anyone.

Related news

Check out the most current and relevant news to stay on top of what is being debated on the Sustainable Development agenda.

Related publications

Want to go deeper into this subject? Check here other publications related to this same theme.

related events

Check out our upcoming events related to this topic and join us to discuss and share best practices.