O valor sustentável

Por Sérgio Tauhata, de São Paulo

Apostar em ações de empresas sustentáveis parece lógico. Mas a cultura do curto prazo e, principalmente, a dificuldade de se avaliar o ganho real para as organizações com estratégias do gênero costumam pesar contra essa tese de investimento. No longo termo, porém, o ganho costuma compensar. E com boa margem, conforme mostra estudo realizado pela consultoria Aon em conjunto com a universidade americana Wharton School, que avaliou a performance de 361 empresas abertas de cinco continentes e 25 setores, segundo a maturidade de gestão de riscos sociais, ambientais, regulatórios, econômicos, entre outros.
Entre os resultados, a pesquisa mostra que os papéis de empresas com melhor gestão de riscos tiveram um índice de volatilidade 38% menor que aquelas com piores controles, no período de março de 2012 a março de 2013. E, entre 2010 e 2012, a vantagem foi ainda maior: 50% menos oscilação de preços dos ativos para o grupo com maior maturidade na gestão de riscos.

Em relação ao retorno dos papéis, no período entre março de 2012 e março de 2013, o grupo com maior maturidade de gestão de risco obteve um ganho médio de 18%, enquanto aqueles com controle mais precário perderam em média 10%. Segundo o estudo, em 2012, ano em que o S&P 500 caiu 4%, os conjuntos com graus de maturidades 1 e 2, os mais baixos na classificação de gestão de risco criada pela Aon para a pesquisa, tiveram prejuízos de 30% e 17%, respectivamente. No mesmo período, os grupos 4 e 5, com as empresas com as maiores notas dentro do critério da consultoria, tiveram retornos estáveis, sem ganhos, mas também sem perdas.
O levantamento da Aon/Warthon também pesquisou cenários específicos de crise. O período entre a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, e o primeiro mês pós-evento foi um desses momentos. De acordo com a pesquisa, o mercado acionário como um todo caiu, mas as empresas com grau 5 tiveram performance 30% superior às de grau 1.

Outro cenário estudado foi o da crise da Grécia, em 2010. Entre abril e junho daquele ano, as companhias com maior grau de controle de risco registraram desempenho médio 45% superior às organizações com menor nível. A consultoria e a universidade levantaram ainda dados sobre a performance dos papéis das companhias logo após o terremoto no Japão, que danificou a usina nuclear de Fukushima, em 2011. No intervalo entre março de 2011 e março de 2012, o grupo 5 conseguiu desempenho 91% maior que o de grau 1.

No Brasil, a performance do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da BM&FBovespa, desde o lançamento, em novembro de 2005, mostra que, no longo prazo, as companhias que incorporaram questões de responsabilidades social, ambiental e econômica, além de foco em governança, tiveram um ganho significativo sobre o conjunto geral. Enquanto o Ibovespa acumulou ganho de 62,51%, o ISE gerou mais que o dobro do retorno no período de novembro de 2005 até 14 de abril deste ano, com 142,7% de rentabilidade.

“É interessante notar que, até a crise financeira no fim de 2008, o ISE e o Ibovespa vinham muito próximos e, após o período, o índice de sustentabilidade se descola do Ibovespa”, afirma a presidente do Conselho Deliberativo do ISE, Sônia Favaretto.
Conforme o diretor da área de consultoria em gestão de riscos da Aon, Alexandre Botelho, a gestão de riscos eficiente e orientada para a sustentabilidade do negócio tem de envolver todos os níveis da empresa. Para o especialista, “a companhia tem de ter isso incorporado em seus processos no dia a dia”. Botelho explica que a aderência da alta direção, do conselho e dos acionistas é essencial. “Se não estiver preparada para entender e minimizar as incertezas a corporação vai tomar decisões piores.”

Na avaliação de Erika Karp, fundadora e CEO do grupo Cornerstone Capital, especializado em sustentabilidade financeira, a incorporação das chamadas dimensões relacionadas às questões de ambiente, sociedade e governança corporativa (ESG, na sigla em inglês) assume cada vez mais importância nas estratégias das empresas e deveria ser olhada como diferencial de investimento. “É o que eu chamo de retorno ajustado ao risco”, diz. Conforme a especialista, empresas mais sustentáveis não apenas têm menor exposição ao risco como estarão melhor posicionadas para aproveitar as oportunidades ao longo do tempo.

De olho nesse prêmio do longo prazo e na maior perenidade de empresas com estratégias ESG incorporadas ao negócio, gestores de recursos têm adotado questões ligadas à sustentabilidade nas ferramentas de análise. A Itaú Asset Management incorporou oficialmente a partir deste ano as questões de ESG em todas as avaliações fundamentalistas de companhias na área de renda variável. “Vamos estender essa análise também para a renda fixa”, afirma o CEO da gestora, Gustavo Murgel.
Signatário da iniciativa das Nações Unidas, chamada de Princípios para Investimento Reponsável (PRI, na sigla em inglês), desde 2008, a integração do ESG nas análises já vinha sendo realizada pela gestora do Itaú mesmo antes da formalização. “Hoje temos 100% de cobertura do ISE, mas até o fim do ano deveremos alcançar 100% de cobertura do Ibovespa”, explica Luiz Felix Cavallari, gestor de renda variável da Itaú Asset Management.

O Bradesco é outra instituição brasileira que aderiu ao PRI. De acordo com Luiz Carlos Angelotti, diretor-executivo do banco, a Bradesco Asset Management (Bram) adotou os princípios do ESG na análise das companhias. “Temos o compromisso, para investimentos, de adotar e olhar empresas com boas práticas socioambientais e de governança”, afirma.

Em grande parte das empresas brasileiras, no entanto, a sustentabilidade ainda é uma realidade distante. Um estudo realizado pela Sitawi, organização sem fins lucrativos especializada no apoio a empresas em programas de sustentabilidade financeira, realizado com 72 companhias abertas que fazem parte do índice MSCI Brazil, 57% tiveram incidentes relevantes em relação a temas relacionados à sustentabilidade em 2013. “São problemas que vão desde incidentes graves, como trabalho escravo, a situações mais leves, como mau atendimento a clientes”, explica Gustavo Pimentel, diretor-gerente da ONG.

O levantamento mapeou todos os eventos negativos, considerados como “controvérsias” em relação às questões ESG, praticadas pelas empresas, que representam dez setores no país. O campeão de incidentes foi o setor de telecomunicações, com mais de 26% de todos os casos – a maior parte, no entanto, relacionada a situações consideradas de “severidade” baixa ou moderada. “O maior foco dos problemas se relaciona a serviços prestados aos clientes, o que inclui até mesmo a queda excessiva de ligações”, explica Pimentel.

O segundo setor mais controverso foi o de serviços financeiros. Segundo o estudo, excesso de espera em filas, falta de segurança e indisponibilidade de serviços lideraram a lista de problemas entre esse grupo.

O setor considerado mais crítico, no entanto, foi o de consumo cíclico ou discricionário, que inclui construtoras e incorporadoras. Esse grupo registrou o maior grau de situações consideradas severas ou muito severas. Segundo o estudo, a maior parte, 67% dos incidentes, envolveu direitos trabalhistas. Os problemas mais graves foram relacionados a trabalho em condições análogas à escravidão.

“A ideia do estudo vem de uma tendência do mercado de capitais de considerar questões sociais, ambientais e de governança para avaliar a performance futura as empresas”, diz Pimentel. “Esses aspectos são relevantes e geram impacto no caixa das empresas e esse impacto só é sentido quando as empresas divulgam seus relatórios trimestrais”, acrescenta o pesquisador.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 16 de abril de 2014

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