Financiamento climático: custo ou oportunidade?

Por Juliana Degani e Karen Tanaka

Desastres climáticos são conhecidos pelos catastróficos danos materiais e financeiros que causam. Como bem colocado por David Attenborough, famoso ambientalista e naturalista britânico, com o aquecimento do planeta, os eventos do clima serão cada vez mais intensos e difíceis de prever, representando um grande risco ao setor financeiro. Este é um dos temas cobertos pela adaptação às mudanças climáticas e foi tratado no painel Finance & Investment do  Climate Adaptation Summit (CAS) de 2021. 

Está claro que os benefícios econômicos provenientes de estar bem preparado para os desastres superam os custos de arcar com suas consequências. Segundo a Comissão Global de Adaptação (GCA), os benefícios superaram em até quatro vezes os custos de investir em resiliência. Emma Howard Boyd, Chair da Agência Britânica do Meio Ambiente e Comissária Britânica da Comissão Global de Adaptação, constatou que os investimentos focados em conter inundações e erosão costeira feitos pela Inglaterra evitaram um enorme dano físico durante a tempestade Christoph que atingiu o Reino Unido em janeiro, sendo que cada libra investida evitou o custo de cinco libras em danos de propriedade. 

Investir em resiliência é a melhor maneira de assegurar estabilidade financeira e econômica, principalmente para os países que serão mais afetados pela emergência climática: os países com economias emergentes. Agora é o momento ideal para que o setor financeiro se una em torno de um maciço esforço global, visando superar os seguintes desafios enumerados por Howard: a) compreender os impactos financeiros dos choques climáticos; b) descobrir o total dos benefícios provenientes da ação preventiva e; c) compreender a melhor alocação possível de capital financeiro para gerenciar os riscos e capturar as oportunidades. 

A implementação de medidas de mitigação, adaptação e resiliência pode representar oportunidades e não apenas riscos. Andrew Steer, Presidente e CEO do World Resources Institute (WRI), afirmou que existem oportunidades na agenda de adaptação voltada às finanças. Segundo Steer, a recuperação econômica pós pandemia do coronavírus é uma grande oportunidade para se comprometer com a adaptação e resiliência, gerando novos empregos, por exemplo. Mari Pangestu, Diretora Administrativa de Políticas de Desenvolvimento e Parcerias do Banco Mundial, reforçou que os esforços do Banco Mundial para implementar resiliência e adaptação estão presentes em todos os projetos, incluindo os programas baseados em comunidades que focam na recuperação de recifes de corais, turismo, reflorestação e restauração da terra, por exemplo, criando empregos e incentivando a economia dos países alvos dos programas. 

A visão de longo prazo focada nas oportunidades foi o fio condutor de todas as falas dos painelistas presentes no CAS2021. A Presidente do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), Odile Renaud-Basso, salientou a importância de aumentar a conscientização dos stakeholders e de melhorar os processos de divulgação de riscos climáticos, dando devida atenção ao envolvimento do setor financeiro. A Presidente do Banco Europeu também mencionou a implementação da Taskforce for Climate-related Financial Disclosures (TCFD) nas atividades da instituição desde 2018, informando que o objetivo da iniciativa é compartilhar os aprendizados com o amplo público. Enquanto estas boas práticas não são divulgadas, confira as recomendações de TCFD do CEBDS here. Os Green Resilient Bonds, primeira iniciativa do gênero e encabeçada pelo BERD, foram introduzidos no final da fala da Presidente, sinalizando um novo tipo de título verde possível, o qual deve contar com grande apoio do setor privado (para saber mais sobre títulos verdes, clique here).

Foi debatido também que a implementação de modelos de negócios resilientes aos impactos climáticos apresentam um retorno melhor do que os modelos não resilientes. John Haley, CEO e Diretor da Willis Towers Watson, trouxe esta perspectiva do setor privado ao painel. O CEO defendeu que em cinco anos não se falará mais em investimentos resilientes, porque todos os investimentos já serão resilientes. Este é o sinal para o setor privado global se engajar com a iniciativa, visto a urgência e a vasta janela de oportunidades financeiras presente. 

Por fim, a importância de agir sobre as oportunidades presentes foi o tema de conclusão. Na exposição de Kristalina Georgieva, Diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), sintetizaram-se os pontos mencionados pelos outros painelistas em uma análise panorâmica da situação atual e do que deve ser feito. A poderosa frase “Se você não gosta da pandemia, não irá gostar da crise climática (…). E a crise já está entre nós” inaugurou seu discurso. Para isso, é necessário adotar resiliência climática e financeira, aproveitar as baixas taxas de juros nacionais para transformar as economias em economias verdes, implementar mercados de carbono ao redor do mundo e estabilizar os preços das emissões em níveis que sustentem a transição verde (melhor maneira de acelerar o controle dos riscos climáticos, segundo Georgieva – para saber mais, clique here); tornar mandatório os processos de divulgações de riscos climáticos e evitar falsos investimentos verdes (chamados de green washing). 

Todos os setores da economia devem estar presentes e o papel estatal de prestar suporte à iniciativa é indispensável. Está claro para o FMI que os níveis requeridos de investimento em resiliência financeira e climática estão longe de serem alcançados se não houver um aumento substancial de capital alocado. É necessário criar o framework ideal para a transição financeira verde do setor privado e a participação das empresas do setor é imprescindível.

O painel Finance & Investment do Climate Adaptation Summit deste ano, em suma, apresentou uma preocupação real com o envolvimento do setor privado nas iniciativas financeiras de transição verde. A pauta de  transparência e divulgação de riscos climáticos recebeu especial atenção, juntamente com os possíveis riscos e oportunidades relacionados às mudanças climáticas (encontre here os riscos e oportunidades do mercado brasileiro). Podemos concluir que 2020-2030 é a década para ação climática e definirá se os compromissos do Acordo de Paris (AP) serão cumpridos até 2050. Para saber mais sobre a contribuição do setor privado brasileiro para o AP, clique here

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